Brasil, o país da diversidade étnica

Brasil, o país da diversidade étnica

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Diversidade e suas tensas relações.

Por Vicente Dimas Santos.

      Cada escola, assim como outras instituições, tem a sua história, sua organização e suas diretrizes, o que as fazem serem diferentes uma das outras. Acompanhando este raciocínio, podemos perceber a comunidade escolar como um “organismo” formado por diversos grupos étnicos, cada qual com sua identidade e crenças.  No entanto, a escola e seu corpo de funcionários, têm encontrado muitas dificuldades para lidar com essa diversidade. Essas diferenças, por menores que sejam, estão se tornando problemas, quando deveriam trazer novas oportunidades de trocas de conhecimentos e experiências, entre os alunos, e entre alunos e professores.
        O professor deve ter como foco, os objetivos e os resultados que ele pretende alcançar, quando propõe uma atividade em sala de aula, para que possa abranger a todos os alunos, mesmo que usando métodos ou estratégias diferentes para “chegar” a cada um deles. E essas estratégias, que visam promover uma maior integração entre a comunidade escolar, passam pela diversificação dos trabalhos realizados com esses alunos, seja incentivando atividades em grupos (tendo o cuidado de não formar grupos homogêneos) ou individuais.
          Nesse momento, você deve estar pensando: “Bom, desenvolver uma atividade em grupos, na sala de aula é fácil.” Na verdade, a questão é muito mais complexa do que se pensa. Imagine uma escola pública, de médio porte, que fica situada na “fronteira” entre duas comunidades em guerra por disputas internas entre tráfico e milícias. Leve em conta também que, além de estar localizada em um local com grande histórico de violência, existam nessa escola inúmeros grupos sociais, completamente diferentes uns dos outros, e que por discriminação e preconceito, não fazem questão de se misturar e trocar experiências. Se unem em grupos homogêneos de ideologia parecida, ou sem ideologia alguma, para se isolarem dos demais ou até mesmo para pratica de violência contra os grupos de minorias, como homossexuais e grupos religiosos.
     O preconceito e as discriminações, muitas vezes começam no lar, quando são disseminadas e até incentivadas pelos próprios pais dos alunos, que acabam entendendo essa postura retrógrada como sendo comum e natural. Por isso, cada vez mais se faz necessário a participação dos pais e responsáveis na comunidade escolar, seja nas reuniões realizadas entre pais e mestres, bem como voluntários em diversas atividades que visam proporcionar uma maior integração entre as crianças e adolescentes que fazem parte dela.
     Com o intuito de conhecer melhor as dificuldades dos professores que trabalham em comunidades carentes, conversei com o professor de história do ensino fundamental da Escola Municipal Oswaldo Teixeira, Marcus Mortati. A escola fica situada em Quintino Bocaiúva, mais precisamente, na comunidade conhecida como Saçú, que tem acesso por rua de mesmo nome. Com um vasto histórico de violência e descaso, esta comunidade está situada em uma “fronteira” de guerra, entre três facções criminosas, que dificulta ainda mais o trabalho dos funcionários da escola na tentativa de agregar as diversidades e promover inclusão de alunos segregados. 

Segue aqui, um pedaço da conversa que tive com o professor Marcus:

Há em sala de aula e na escola em que trabalha atitudes preconceituosas, discriminatórias e racistas, por parte de alunos ou funcionários? Em que situações são possíveis identificá-las?

  Sim. Essas atitudes materializam-se em diversas situações. Podemos exemplificá-las, no preconceito religioso, onde alguns membros da comunidade escolar, de denominação neopentecostal segregam aqueles de religiões afro-brasileiras e os que participam das festividades de Cosme e Damião, dentre outras festividades tão populares no Rio de Janeiro. Os mesmos neopentecostais segregam os demais quando reunidos dentro da escola. Esse é um dos inúmeros exemplos que podemos citar numa miríade de pequenas doses de discriminação que alunos, professores, funcionários e responsáveis destilam no seu cotidiano. São observadas não só as discriminações étnicas (realizada nas relações branco-negro, bem como nas relações negro-branco, onde o negro também se mostra capaz de discriminar), mas também as de opção sexual, onde adolescentes são humilhados e até agredidos fisicamente; as de origem, onde crianças vindas da Região Nordeste ou de famílias nordestinas são discriminadas; e destacam-se também as ações discriminatórias advindas da tensa relação “favela-asfalto” e das relações entre alunos de comunidades dominadas por facções diferentes. Observam-se essas atitudes, como as mais comuns entre os membros da comunidade escolar, dentre outras mais sutis.

Que dificuldades os professores enfrentam ao tentar promover a inclusão escolar de alunos das chamadas minorias sociais?


     A maior das dificuldades, passa pela estrutura familiar precária, a que boa parte desses alunos está submetida. No cotidiano escolar fica evidente o pouco comprometimento familiar com essa questão. A ausência de responsáveis nas reuniões de “entrega de boletins” e em outras ocasiões em que são convocados é evidente. É uma luta desigual para os professores, já que passam poucas horas do dia com os alunos em comparação com a família, que passa, ou deveriam passar todo o restante do dia. 

Na prática, como podemos trabalhar com a diversidade dos alunos, respeitando e valorizando as diferenças?

   Em pequenas doses, e sem institucionalizar. Demonstrar exemplos, estimular boas condutas. Não apenas promover inclusão, mas sim, produzir união, aceitação e principalmente respeito pelo outro, dentro do cenário das diferenças. Não há regra que obrigue a crianças e adolescentes a “serem amigos”, mas sim incentivos e exemplos que podem partir do professor e dos funcionários da escola naturalmente. Ou seja, desenvolver uma aprendizagem significativa numa perspectiva social entre escola/professor/aluno/pais/comunidade.

Marcus Mortati, Professor I da disciplina de História, da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, lotado junto à Escola Municipal Oswaldo Teixeira, 5ª CRE.

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